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Detentos que farão provas do Enem querem reconstruir vida no RN


É nos livros da pequena biblioteca do maior presídio do Rio Grande do Norte que Walter Pereira da Costa Filho, de 35 anos, aposta para conseguir uma vaga em uma universidade pública e iniciar a reconstrução da vida fora da cadeia. Preso na Penintenciária Estadual de Alcaçuz, em Nísia Floresta, o detento é um dos 75 presidiários do estado que farão as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para o sistema prisional.

Com provas agendadas para os dias 3 e 4 de dezembro, o Enem é visto pelos detentos como a chance de reduzir a pena e buscar a reinserção na sociedade. Condenado sob a acusação de estupro, Walter tentará uma vaga no curso de Educação Física. O preso conta que escolha pelo curso foi natural. "Gosto de artes marciais e já pratiquei Kung Fu", revela o preso, que divide cela com o pai, condenado pelo mesmo crime.

O presidiário foi condenado há nove anos, dos quais cumpriu 1 ano e seis meses. No entanto, graças ao trabalho como assistente de serviços gerais na prisão Walter espera conseguir a progressão para regime semi-aberto até março do ano que vem. Pai de um menino de 8 anos, ele espera iniciar a reconstrução da vida com a aprovação no Enem prisional.

"Por meio da educação é que vão se abrir as portas para um bom emprego. Espero mostrar à sociedade que sou um cidadão de bem", afirma.

Para atingir o objetivo, Walter conta com o aprendizado do ensino médio e dos livros da pequena biblioteca de Alcaçuz. "Os livros nos ajudam muito, mas são bem ultrapassados", diz o detento.

Volta por cima

Preso após tentar matar a própria mulher, Sílvio da Silva, de 45 anos, quer esquecer o passado e recomeçar. "Foi um um momento de raiva. Por causa de 5 ou 10 minutos da minha vida estou nessa situação", relata. Detento da Penitenciária de Alcaçuz há dois anos e seis meses, ele trabalha entregando quentinhas dentro do maior presídio do RN.

Mesmo ainda indeciso sobre qual curso escolher, Sílvio vê no Enem a chance de adquirir conhecimento para buscar uma nova vida. "O que puder fazer para melhorar meu aprendizado eu farei", conta o presidiário, que espera estar no regime semi-aberto em dezembro para reencontrar os seis filhos. "O maior castigo da prisão é a ausência da família", diz.

Antes de ser preso, Sílvio trabalhava em obras, área para a qual pretende retornar quando ganhar a liberdade. "Aquele que quer ser alguém e dar a volta por cima tem de ter a chance. Temos que mostrar à sociedade que podemos e temos direito de voltar", conclui o detento.

Walter trabalhava como segurança antes de se tornar detento de Alcaçuz (Foto: Felipe Gibson/G1)
Walter era segurança antes de ser preso
(Foto: Felipe Gibson/G1)
Provas

No Enem aplicado nos presídios os candidatos fazem uma prova com questões diferentes em relação ao Enem que será realizado para mais de 7,1 milhões de candidatos nos dias 26 e 27 de outubro.

Sílvio em momento de estudo na biblioteca de Alcaçuz (Foto: Felipe Gibson/G1)
Sílvio em momento de estudo na biblioteca 
(Foto: Felipe Gibson/G1)
O formato, no entanto, é o mesmo: no primeiro dia, os candidatos respondem a 45 questões de ciências humanas e mais 45 de ciências da natureza em 4h30. No segundo dia, 45 questões de linguagens e 45 de matemática, mais uma redação, em 5h30.

Além de vagas nas universidades federais, o Enem possibilita ao candidato obter a certificação no ensino médio.

No ano passado, 23.665 candidatos em situação de privação de liberdade fizeram o Enem, sendo 20.6897 homens e 2.978 mulheres. Do total, 17.945 buscaram a certificação do ensino médio

Fonte: G1/RN